Aparentemente, nada de muito espetacular nesta descoberta: apenas um pedacinho de rocha de
2 kg, do tamanho de uma batata, que foi encontrado na Antartica em 1984, na região
chamada Alan Hills (donde o nome, ALH 84001). Instituições do mundo todo, incluindo o
Museu de História Natural em Londres, requisitaram pedaços da rocha e a vêm estudando
desde então. A certeza de que o pedaço de rocha é um meteorito proveniente de Marte
surgiu somente dez anos depois, em 1994. Também ficou estabelecido que o meteorito deve
ter caido na Terra há mais ou menos 13000 anos.
Mas a verdadeira bomba estourou no dia 7 de agosto de 1996: a NASA anunciou para o mundo,
num comunicado à imprensa, suas suspeitas de que havia evidências de vida extraterrestre
no meteorito . Em 16 de agosto, a revista Science finalmente publicou o trabalho da equipe
que chegou a essas conclusões, liderada pelos pesquisadores Dr. David McKay, Dr. Everett
Gibson e Dr. Richard Zare. Embora as evidências não sejam definitivas, as notícias
incendiaram a imaginação de muitos cientistas e reacenderam o debate sobre a velha
questão: haverá mesmo vida fora de nosso planeta? Vamos tentar organizar, a seguir, as
informações que se têm à respeito do assunto.
ALH84001: como se formou?
Parece não subsistir dúvidas sobre o fato de que o ALH84001 provém mesmo de Marte, fato
anunciado em 1994, e que causou muita excitação no meio científico. Esta evidência foi
conseguida pela medição e análise dos gases aprisionados no seu interior; sua
composição está de acordo com os dados fornecidos pela missão Viking, que analisou a
atmosfera marciana. Por outro lado, meteoritos que provêm do mesmo planeta têm uma
composição semelhante, em termos dos isótopos de oxigênio que eles contêm. O ALH
84001 tem realmente uma composição semelhante à de outros onze meteoritos estudados,
que seguramente provêm de Marte.
Acredita-se que há mais ou menos quinze milhões de anos, um grande cometa ou asteróide
se chocou contra a superfície de Marte. Esse impacto foi tão violento que acabou
ejetando um pedaço de rocha do subsolo do planeta, com força suficiente para escapar da
gravidade de Marte. A rocha flutuou no espaço durante milhões de anos, entrou na
atmosfera terrestre 13000 anos atrás, e acabou por cair na Antarctica.
AS TRÊS EVIDÊNCIAS DE VIDA NO ALH84001
Carbonatos e carbono orgânico
Inicialmente, chamou a atenção o fato de o meteorito conter muito carbono. Cientistas do
Museu de História Natural de Londres já haviam verificado anteriormente que o meteorito
continha maior quantidade desse elemento do que os demais meteoritos marcianos conhecidos.
O carbono, não esqueçamos, é um elemento essencial na formação das moléculas da
vida, como proteínas e ácidos nucléicos.
Os cientistas da NASA demonstraram que esse carbono existia no meteorito sob duas formas.
Assim, detectou-se a existência de carbonatos, além de compostos orgânicos
ricos em carbono. Os carbonatos traem a presença de gás carbônico na atmosfera
marciana, pelo menos na época em que se formaram. A rocha original, já dissemos,
pertencia ao subsolo de Marte, e deve ter sido fraturada pelos freqüentes impactos dos
meteoros que caíam sobre o planeta. Há 3,5 a 4 bilhões de anos, quando Marte era mais
quente e mais úmido, deve ter havido infiltração de água, sais minerais,
microrganismos e de carbonatos nas fraturas da rocha.
Já o carbono orgânico estava presente sob a forma de hidrocarbonetos
policíclicos aromáticos ( ou PAH, abreviação de Polycyclic aromatic
hydrocarbons). Essas substâncias de nome comprido se formam aqui na Terra pela
fossilização de organismos vivos: quando os microrganismos morrem, suas moléculas
orgânicas se degradam e formam PAH. Elas são, em conseqüência, freqüentemente
encontradas em depósitos de carvão e de petróleo. No caso do meteorito, detectaram-se
PAHs em quantidades apreciáveis, bem próximos aos glóbulos de carbonato, e o conjunto
de dados parece reforçar que se formaram através de um processo de fossilização.
Um detalhe que pode ter importância na discussão: os PAHs do meteorito são diferentes
daqueles que existem em outros meteoritos, e não contêm naftaleno, um PAH normalmente
presente aqui na Terra.
Magnetita sobre os carbonatos
Utilizando-se de um microscópio eletrônico de alta resolução, os pesquisadores da NASA
também acharam sobre os carbonatos grãos individuais de magnetita (óxido de ferro) e de
sulfeto de ferro. Essas substâncias são normalmente produzidas por bactérias
anaeróbicas terrestres e por outros organismos microscópicos. Também foram encontrados
no meteorito outros minerais, normalmente relacionados à atividade biológica de
microrganismos. A foto mostra algumas estruturas ovóides no interior do meteorito,
observado ao microscópio eletrônico de varredura, podem ser microfósseis de bactérias
Fósseis de bactérias marcianas?
Agora, os achados mais polêmicos. Na superfície dos carbonatos foram encontradas
estruturas alongadas, semelhantes a fios, que se supõe serem remanescentes fossilizados
de organismos primitivos, como bactérias. Elas têm um milésimo do diâmetro de um
cabelo humano, e têm uma certa semelhança com microfósseis de bactérias terrestres.
Veja as figuras ao lado, que mostram essas estruturas.
Vários indícios ao mesmo tempo
Na realidade, qualquer um dos fatores acima, individualmente, pode ser explicado somente
em termos inorgânicos, sem haver a necessidade de se pensar numa explicação biológica.
No entanto, a reunião desses indícios na mesma rocha se torna bastante perturbadora.
Estamos falando da presença simultânea de moléculas orgânicas (PAHs especiais), ao
lado de estruturas semelhantes a fósseis de bactérias e bem próximos a grânulos de
magnetita, sendo todas essas estruturas separadas por apenas milionésimos de milimetros
na rocha! Os pesquisadores da NASA consideram essa reunião de fatores como fortes
indícios de que tenha havido um dia atividade biológica no planeta Marte.
ARGUMENTOS E CONTRA-ARGUMENTOS
Uma dúvida que poderia sobrar, quando pensamos em toda essa problemática: como
garantir que todos os fatores que citamos não se formaram na própria Antarctica, ou
seja, depois que o meteorito caiu na Terra? No entanto, parece que essa hipótese está
descartada, pelos motivos que discutiremos a seguir.
Outros meteoritos encontrados na Antarctica foram submetidos a vários estudos, exatamente
para efeito de comparação. No entanto, eles não mostraram a presença de estruturas
semelhantes aos "fósseis" encontradas no ALH84001, nem moléculas orgânicas ou
substâncias minerais similares aos da rocha marciana. Verificou-se, além disso, que o
carbonato do ALH84001 tem, de fato, mais ou menos 3,6 bilhões de anos, e que as
moléculas orgânicas estão associadas a esses glóbulos. Isso demonstra claramente que
essas substâncias se formaram em Marte, e não no nosso planeta.
Outra dúvida que poderia ser colocada: pelo fato de os PAHs serem freqüentes na Terra,
como ter certeza de que o meteorito não teria sofrido, aqui mesmo, contaminação
por essas substâncias? Mais uma vez, as evidências negam isso. Veja porque: não foram
encontrados PAHs na crosta externa do meteorito; no entanto, a quantidade dessas
substâncias vai subindo gradualmente na parte interior do pedaço de rocha, até
atingir concentrações mais altas do que as normalmente encontradas na Antártica. Este
dado é bastante incisivo: afinal, se as moléculas de PAHs tivessem se originado por
contaminação, deveriam estar presentes na crosta do meteorito, e suas concentrações
decresceriam à medida que se analisassem as camadas mais internas da rocha.
Poderia estranhar-se o fato de que outros meteoritos marcianos estudados anteriormente
não tivessem evidenciado nenhum desses resultados. Isso, no entanto, tem a ver com o
avanço da tecnologia. Foram utilizados desta vez métodos muito sofisticados, não
disponíveis há alguns anos, como a microscopia eletrônica de varredura de alta
resolução, e a espectrometria de massa a laser. O próprio ALH 84001, logo após sua
descoberta, foi estudado com instrumentos de menor capacidade de amplificação, e nada
revelou na ocasião daquilo que se verificou agora.
A CONTESTAÇÃO DA HIPÓTESE
Em ciência, as novas hipóteses nunca são aceitas sem uma rigorosa checagem e tentativas
de contra- argumentação. Esse processo de contestação faz parte da rotina científica.
Com relação ao meteorito marciano, a revista científica Nature publicou, há
pouco, um artigo de dois pesquisadores do MIT, John Grotzinger e Daniel Rothman, que põe
em dúvida a interpretação de que os indícios encontrados pela NASA sejam realmente de
fósseis de bactérias. Os cientistas afirmam no seu artigo que formações calcárias na
Terra, com 1,9 bilhão de anos, deixam sinais idênticos aos que foram interpretados como
indícios de microrganismos marcianos.
Na realidade, os próprios pesquisadores da NASA deixam claro que nada afirmam em
relação a vida em Marte. Eles estão apenas tornando esses dados disponíveis, para que
a comunidade científica discuta, melhore ou ataque os resultados. Afirmam eles, num certo
trecho de suas declarações à imprensa: "Não estamos falando de homenzinhos
verdes, mas sim de estruturas extremamente pequenas que se assemelham a bactérias
terrestres". Se as estruturas observadas são realmente microfósseis, serão
necessários maior quantidade de dados para confirmar.
A CONTINUIDADE DAS PESQUISAS
De qualquer forma, toda a polêmica estimula a continuidade dos estudos, em busca de uma forma de vida que não tenha se originado no nosso planeta. Outras missões a Marte, automáticas ou tripuladas, estão planejadas para os próximos anos. Deverão se iniciar em novembro deste ano, e serão dedicadas ao estudo da superfície do planeta. No entanto, não haverá nenhuma outra chance de se pesquisar vida em novas rochas marcianas até o ano 2005, quando se tentará trazer mais amostras para a Terra, que poderão levar a conclusões mais sólidas. Quanto a uma missão tripulada, não se acredita que ela seja possível antes do ano 2018. Veremos, até lá...
Pesquisa e autoria dos profs.
César, Sezar e Bedaque
(setembro de 1996)
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