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Inteligência da criança e ambiente uterino

Os psicólogos que estudam o QI (quociente de inteligência) tentam, há muito tempo, entender em que medida nossa inteligência é devida a nossos genes e em que medida ao ambiente que nos cerca, como nossos pais, nossa nutrição na infância, nossos professores, enfim, todos os fatores que nos cercaram depois do nascimento.

Para esses cientistas, a possibilidade de estudar gêmeos idênticos separados na infância é um verdadeiro achado. Veja o porquê. Gêmeos idênticos têm exatamente os mesmos genes, porque se originam do mesmo zigoto. Por outro lado, quando são separados logo depois do nascimento assume-se que os ambientes em que crescem são totalmente diferentes. Dessa forma, todas as semelhanças na sua inteligência deveriam depender apenas de seus genes. Esses estudos, classicamente, têm demonstrado que a responsabilidade pelo QI era 70% genética e 30% ambiental.

Ocorre que, em agosto de 1997, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh relatou os resultados de uma experiência que critica o método acima. O grupo acredita que a noção de "ambiente totalmente diferente" não é válida, nesses casos, já que esses gêmeos haviam compartilhado pelo menos o ambiente do útero materno. Foram analisados novamente 212 casos, em que havia sido estudada a relação entre o QI e os genes, nos últimos 70 anos. A conclusão a que chegaram foi de que genes e ambiente são ambos responsáveis pela inteligência, porém em medidas diferentes daquilo que se acreditava; isso porque os cientistas incluíram no seu estudo o "efeito materno". Segundo eles, o ambiente uterino seria responsável por 20% das semelhanças de QI, nos gêmeos idênticos. Assim sendo, no cômputo geral, o efeito dos genes no QI seria não dos 70% estimados anteriormente, mas sim de apenas 34%.

Parece óbvio, de certa maneira, que o ambiente do útero tenha de fato alguma importância. Tanto que os ginecologistas advertem, há muito tempo, as mulheres grávidas sobre os efeitos do fumo, das drogas, do álcool, além de as prevenirem para se alimentar corretamente. Cuidados pré-natais precários em mulheres de nível socioeconômico mais baixo poderiam também explicar o nascimento de crianças com QI mais baixos, que apresentassem mais tarde problemas na escola.

O que fica ainda em aberto, na realidade, é identificar de forma precisa quais aspectos do ambiente uterino realmente afetam a inteligência da criança. Poderia ser qualquer coisa, desde a concentração de adrenalina no sangue materno, a quantidade de proteínas na sua dieta durante os três primeiros meses, até a exposição a poluentes nos períodos críticos da formação do cérebro.

Há ainda um dado que pode reforçar a tese do "ambiente uterino". Gêmeos fraternos criados juntos são mais semelhantes entre si do que irmãos que não sejam gêmeos, também criados juntos. Ora, em termos genéticos, gêmeos fraternos são tão diferentes quanto irmãos não-gêmeos. Assim, sua maior semelhança poderia ser devida ao ambiente intra-uterino, que compartilharam por ocasião de seu desenvolvimento.

Na verdade, ainda falta muito para podermos afirmar com segurança que verdadeiro papel teria o ambiente uterino sobre a inteligência da criança. No entanto, foi dada a partida, e resta esperar novas pesquisas e resultados mais conclusivos.

Traduzido e adaptado pelos professores César, Sezar e Bedaque,
da revista Newsweek, de 11 de agosto de 1997.