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A medicina da selva

Convivendo com cobras e outros bichos em plena Amazônia, agrônomo de Botucatu identifica e cataloga 161 espécies de plantas medicinais do sul do Acre.

Tomou surucuína, a dor sumiu! Além de não rimar, o slogan não tem nada de original. Mas, para a comunidade da Reserva Extrativista Chico Mendes, no sul do Acre, a exótica frutinha, encontrada em abundância em seus quintais, é solução eficaz contra uma série de males, incluindo os efeitos de veneno de cobra. A suricuíma e outras 160 espécies de plantas consideradas medicinais pelos seringueiros da reserva foram estudadas e catalogadas pelo engenheiro agrônomo Lin Chau Ming , do Departamento de Horticultura da Faculdade de Ciências Agrônomas (FCA) do campus de Botucatu. Versão unespiana de Indiana Jones, desde 1991 Ming passa um mês do ano pesquisando as plantas, morando com os nativos e se submetendo a toda sorte de aventuras. O trabalho faz parte de sua dissertação de doutorado, defendida no final de 1995, no Instituto de Biociência (IB) de Botucatu. Deste trabalho será produzido um livro, em breve publicado e distribuído gratuitamente aos seringueiros, servindo inclusive de guia para os estudiosos do assunto.

Ming, nascido em Taipei, China, chegou ao Brasil com três anos de idade. Fascinado desde jovem por incursões na selva, visitou o Acre pela primeira vez em 1988. "A região é riquíssima em espécies animais e vegetais, mas pouco pesquisada", comenta. "Isso me motivou a estudar as plantas medicinais típicas." Há cinco anos conseguiu uma bolsa de pesquisa patrocinada pala Universidade Federal do Acre e pelo Jardim Botânico de Nova York. Com a verba garantida, sua primeira missão foi ganhar a confiança dos nativos que, segundo ele, "olhavam torto para um chinês patrocinado por uma entidade americana". Com o tempo, porém, os moradores locais, além de guias, passaram a ser parceiros de pesquisa e companheiros de aventuras.

Nova cultura

A reserva Chico Mendes, escolhida por Ming como campo de pesquisa, tem uma área de 975 mil hectares, cerca de seis vezes e meio o tamanho do município de São Paulo. Estima-se que 95% do território se mantenha praticamente intacto. Lá moram três mil famílias, que vivem basicamente da extração de borracha e da coleta da castanha-do-Pará. A maioria delas descende de nordestinos fugitivos da seca do início do século, que, em fusão com os costumes de caboclos e índios, criaram uma nova cultura. Neste aspecto, as plantas medicinais catalogadas por Ming e encontradas em abundância no local são exemplos da influência destes imigrantes: um terço delas foram trazidas de outras regiões do país.

Para seu levantamento, Ming conversou com 53 seringueiros de toda a reserva, lá estabelecidos há mais de 25 anos, que mostravam as plantas e descreviam sua utilização. Cada espécie era catalogada, desidratada e depois cuidadosamente estudada. Duplicatas de todo o material coletado foram enviadas para os herbários da UFAC, do Jardim Botânico de Nova Yorque e do IB. O exemplar mandado para os Estados Unidos, de acordo com o contrato do convênio, era pulverizado com produto tóxico, para que não pudesse ser posteriormente reproduzido em laboratório.

Além da catalogação e da indentificação botânica, Ming estudou todos os usos medicinais que os seringueiros faziam das plantas. Segundo seus registros, a maior parte das 37 espécies catalogadas é indicada para doenças do aparelho respiratório, como gripe, asma e bronquite. São seguidas pelas doenças dermatológicas, pelo grupo das dores de cabeça e febre, e pelos males de fígado, baço e rins. "Na maioria das enfermidades, o seringueiro combina mais de uma planta, em forma de chás, pós, pastas, fumaça ou pela própria ingestão in natura", conta. A diarréia, por exemplo, é tratada com um chá que combina erva-cidreira, olho-goiaba e sal; para hepatite, a indicação é uma infusão de tiririca, raiz de sapé e folha de capeba; a malária pode ser tratada com o chá de quina-quina. Também foi estudada a utilização de outros componentes junto com plantas nos medicamentos, como presa de porco selvagem, pena de pássaro e casca de ovo.

Diário de bordo

quina.GIF (4006 bytes)A vida de Ming no ambiente selvagem não se resumiu apenas ao levantamento de dados para sua pesquisa. Longas viagens de barco, ataque de insetos e de bichos ferozes e até a degustação pouco convencional - o cardápio inclui, entre as iguarias, carne de macaco - fizeram parte de seu diário de bordo. Testemunhou pessoas envenenadas por cobras serem curadas com plantas. Pegou doenças e foi tratado na própria reserva. "Tive , enfim, uma prova pessoal da eficácia dessa medicina alternativa." Ming evitou, porém, descrever receitas do uso de plantas medicinais. O pesquisador evitou discriminar a proporção exata de cada planta nos remédios. "Esse é um trabalho da área farmacológica e foge ao meu conhecimento", justifica.

A publicação de um livro foi o meio encontrado por Ming para proteger, de alguma forma, a propriedade intelectual dos seringueiros sobre o uso das plantas medicinais. "Queria evitar a exploração comercial de indústrias farmacêuticas sem que houvesse compensação para os nativos", comenta. Além disso, ficaria mais fácil difundir as informações sobre as plantas para todos os moradores da reserva, distante de hospitais e farmácias comuns. "A região é imensa e as pessoas acabam não conhecendo todas as espécies e suas utilidades", justifica.

Esse livro, redigido em parceria com dois seringueiros, Virgílio Padilha dos Santos e Paulo Gaudêncio, considerados pela comunidade como os papas no assunto, poderá ser fornecido a estudiosos e centros de pesquisa. Com relação a trabalhos futuros, Ming coordenará a parte medicinal de um projeto da Fundo do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que pretende estudar a flora do Estado. "Paralelamente a esta pesquisa, trabalharei com os alunos da UNESP estudando as plantas medicinais existentes na região de Botucatu", planeja.

Rogério Silveira e Waltair Martão

Texto extraído pelos professores César, Sezar e Bedaque
do Jornal da UNESP n.º 107, de outubro de 96