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Plantas ou animais: quem é mais complexo? Quando, em Biologia, se faz um estudo sistemático dos organismos vivos, verifica-se que há uma tendência ao aumento de complexidade, ao longo da história da vida. Organismos animais e vegetais clorofilados, no entanto, seguiram linhas evolutivas bastante diferentes, que divergiram desde cedo, muito provavelmente em função de seus mecanismos de nutrição. Assim, uma resposta à pergunta feita no título deste texto pode não ser tão fácil. Muita gente, num primeiro impulso, responderia que os animais são mais complexos, baseando-se no fato de normalmente se locomoverem, terem órgãos dos sentidos e sistema nervoso, atributos que as plantas não possuem. No entanto, mesmo assim, as coisas não são tão simples quanto parecem. Vamos ver o porquê. As plantas são capazes de fabricar, no interior de suas células, uma variedade de substâncias muito maior do que a que os animais produzem. Elas fazem açúcares, aminoácidos, pigmentos, substâncias aromáticas, hormônios, além de compostos para sua defesa, como venenos e inseticidas naturais. O processo-chave que dá origem a essa variedade de substâncias químicas é a fotossíntese, na qual as plantas utilizam a luz solar, o gás carbônico e a água para fabricar um composto orgânico simples, o fosfogliceraldeído, ou PGA, ponto de partida para inúmeras substâncias, como a glicose, a celulose, as gorduras, e assim por diante. Adicionando ao PGA nitrogênio, enxofre, fósforo e outros elementos, todos provenientes dos sais minerais do ambiente, as plantas sintetizam ainda todos os aminoácidos e os nucleotídios necessários à produção, respectivamente, de suas proteínas e de seus ácidos nucléicos (DNA e RNA); enfim, produzem tudo o que faz parte da estrutura de suas células. A dieta das plantas, considerando o que precisam retirar da natureza, é então bastante simples: luz, água, gás carbônico e sais minerais. São, por isso, chamadas autótrofas, o que quer dizer, traduzindo aproximadamente, que "se nutrem de alimentos feitos nelas mesmas". Com relação ao que retiram do ambiente, os animais são bem mais exigentes do que os vegetais. Não são capazes de fabricar, dentro de suas células, todas as substâncias de que necessitam. Assim, nós, seres humanos, como animais que somos, precisamos obter várias dessas substâncias no ambiente, sob pena de não podermos sobreviver. Dos 20 aminoácidos que utilizamos para fazer proteínas, fabricamos apenas 12, que são ditos naturais. Não sabemos produzir os 8 restantes, que são, por isso, ditos aminoácidos essenciais, no sentido de que sua presença na dieta é obrigatória para nossa saúde. Conseguimos esses e os demais aminoácidos quando comemos plantas ou outros animais que, por sua vez, os haviam obtido de plantas. Normalmente, o alimento que ingerimos é constituído por substâncias complexas, como proteínas e ácidos nucléicos, que precisam ser digeridos para fornecer as unidades fundamentais, tais como aminoácidos e nucleotídios, exatamente os mesmos nos animais e nos vegetais. Não produzimos, tampouco, vitaminas, compostos fundamentais para o metabolismo normal; também elas são conseguidas, direta ou indiretamente, das plantas. Assim, o ambiente acaba fornecendo aos animais uma variedade de substâncias muito maior do que a que fornece às plantas. No sentido de que não conseguem fazer seu alimento orgânico ou de que o fazem de forma muito incompleta, os animais são ditos heterótrofos, ou seja, "comem matéria diferente da sua própria". Do ponto de vista bioquímico, portanto, os animais são muito menos sofisticados do que as plantas e, por isso mesmo, muito mais dependentes do ambiente. Isso ocorre devido ao fato de os animais não fazerem fotossíntese, já que não têm os pigmentos e as enzimas necessárias para isso. Além disso, seus sistemas enzimáticos celulares são, no geral, muito menos poderosos e muito menos complexos do que os dos vegetais clorofilados. Num outro sentido, os animais apresentam um grau de complexidade nunca alcançado pelos vegetais. Talvez por dependerem de outros organismos para conseguir alimento, a complexidade dos animais tenha tomado um rumo diferente, no decorrer da evolução. Muito provavelmente, várias características evolutivas especiais, ausentes nas plantas, foram neles selecionadas. Veja, por exemplo, o caso do sistema digestório: de nenhuma "utilidade" num vegetal, que afinal sintetiza sua própria comida, é fundamental num animal, para desmantelar o alimento e originar as unidades fundamentais. Por outro lado, o alimento, para poder ser "caçado" adequadamente pelos animais, precisa antes de mais nada ser "percebido"! Assim sendo, a visão, a olfação, a audição, o tato, os órgãos dos sentidos, enfim, quando aparecem na história da vida, representam um valioso trunfo adaptativo para os animais. O mesmo pode ser dito dos sistemas locomotores, com os quais os animais exploram seu ambiente de forma eficiente para conseguir alimento. Quando esses sistemas não existem, como nas esponjas e nos mexilhões, as correntes de água "trazem" o alimento até eles. Por fim, para que os órgãos dos sentidos e os sistemas de locomoção tenham uma utilidade verdadeira, precisam funcionar em conjunto, de forma harmoniosa. Deve haver um sistema que interprete a informação colhida do ambiente e elabore a resposta adequada, coordenando a ação, em última análise. Estamos falando aqui da evolução dos sistemas nervosos que, no seu ápice de sofisticação, culminou no aparecimento da inteligência, com todas as conseqüências positivas e negativas que ela implica para a própria natureza. Alguns parasitas, como a tênia (ou solitária), aparentemente muito simplificados como organismos, são, certamente, casos extremos de adaptação a uma condição alimentar bastante específica. Por viver no intestino de mamíferos, a solitária, por exemplo, recebe diretamente todos os nutrientes de que precisa, pré-digeridos e prontos para serem utilizados. Não é de estranhar, assim, que a solitária não tenha tubo digestivo próprio, e que tenha perdido a capacidade de síntese de muitas substâncias que outros animais normalmente fabricam. É preciso ter cuidado, no entanto, na interpretação evolutiva deste fato: não foi a "falta de necessidade" que teria feito desaparecer o tubo digestivo, ao longo da evolução. Se, porém, num ancestral da tênia atual, parasita do intestino, tivessem acontecido as mutações que levassem ao desaparecimento do tubo digestivo, essas mutações não seriam letais, já que o ambiente em que o animal vive se encarregaria de fornecer nutrientes prontos. A questão de quem é mais complexo, portanto, depende muito do nível de organização em que os organismos são estudados. As plantas são certamente mais sofisticadas em termos das ferramentas bioquímicas de que dispõem e, portanto, de suas capacidades de síntese, tendo grande independência alimentar em relação ao meio. Os animais, quando estudados em nível de tecidos, de órgãos ou de sistemas, são certamente mais complexos, o que, de certa forma, supre suas menores capacidades bioquímicas e sua maior dependência alimentar em relação ao ambiente. Pesquisa
e autoria dos professores César, Sezar e Bedaque |