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Prêmio Nobel para descobridor de príons

Os dois artigos abaixo foram publicados pelo jornal O Estado de São Paulo, em 7 de outubro de 1997. Referem-se à descoberta dos príons, partículas protéicas causadoras de doenças infecciosas, e ao prêmio Nobel de Medicina, concedido ao pesquisador Stanley Prusiner. Se você quiser saber mais sobre o assunto, clique na palavra príon; você será remetido a um artigo desta homepage, escrito em setembro de 1996, que discute o assunto.

Pesquisador da demência ganha Nobel de Medicina

prusiner.JPG (9539 bytes)ESTOCOLMO - O neurologista norte-americano Stanley Prusiner, que descobriu uma proteína causadora da demência bovina e de outras doenças degenerativas do cérebro, ganhou ontem o Prêmio Nobel de Medicina. O trabalho de Prusiner, de 55 anos, professor da Universidade da Califórnia, em São Francisco, ajudará no desenvolvimento de tratamentos para patologias cerebrais degenerativas, entre as quais Alzheimer e Parkinson.  

Segundo o Instituto Karolinska, de Estocolmo, a descoberta de Prusiner ajudou o mundo a entender mais sobre Alzheimer e a versão humana da doença da vaca louca (enfermidade de Creutzfeldt-Jakob). Ao saber da premiação, o cientista comentou que o Nobel "apóia tudo o que venho dizendo". E brincou, dizendo que vai usar o dinheiro, US$ 1 milhão, para pagar seus impostos.  

O especialista descobriu o príon, uma proteína que se manifesta na forma de duas, uma comparada a um inocente dr. Jekyll e a outra, ao perigoso Mr. Hyde - os personagens de O Médico e o Monstro -, capaz de causar doença e morte. De acordo com o instituto de Estocolmo, Prusiner resolveu o enigma sobre as propriedades do príon. O neurologista iniciou o trabalho em 1972, depois que um de seus pacientes morreu de demência resultante da doença de Creutzfeldt-Jakob. Dez anos depois, ele e sua equipe produziram um preparado derivado do cérebro de cobaias doentes que continha um só agente chamado príon.

"Os príons existem normalmente como proteínas celulares inócuas; mas eles possuem uma capacidade inata de converter suas estruturas, o que resulta na formação de partículas perigosas, agentes causadores de diversas doenças cerebrais do tipo da demência em cérebros humanos e animais", esclareceu o instituto.  

Todas as doenças causadas pelos príons são invariavelmente mortais. Os príons não são detectados pelas defesas imunológicas, que não os identificam como perigosos porque estão naturalmente no organismo desde o nascimento. Durante o período de incubação, o príon acumula-se em diferentes partes do tecido cerebral, conduzindo a sintomas diversos, conforme o tipo de doença. Quando o cerebelo é afetado, a capacidade de coordenação dos movimentos deteriora-se.

Associated Press, Reuter e Ansa

Príons são agentes infecciosos bizarros

BRASÍLIA - A descoberta de Stanley Prusiner ganhou destaque quando a encefalite espongiforme bovina, a doença da vaca louca, provocou verdadeira devastação na pecuária britânica e trouxe apreensão aos consumidores de carne de todo o mundo. A partir daí, a teoria das proteínas de Prusiner - os príons - ganhou reconhecimento.  

Em artigo que publicou em 1995 na revista Scientific American, o professor Prusiner demonstrou grande humildade ao admitir que em 1980 a noção dos príons só poderia ser considerada como herética pelo mundo científico: naquela época, disse, era dogma que os agentes de doenças transmissíveis deveriam ser integrados de material genético, de DNA ou RNA, de modo a estabelecer uma infecção na célula anfitriã. Afinal, até mesmo os vírus, dentre os micróbios mais simples, dependem de tal material para a síntese direta de proteínas, necessárias para a sobrevivência e a reprodução.  

Não somente nesse aspecto a descoberta de Prusiner chocava-se com o conhecimento da época. Havia o fato também de que ele apontara as proteínas provocadoras da doença como geradas espontaneamente no organismo, mas também transmissíveis. Essa ação dupla era então desconhecida na ciência médica. E mais ainda, concluiu que os príons se multiplicavam em velocidade extraordinária, pelo simples contato da molécula contaminada com a sã.  

Os príons de Prusiner são, de fato, os agentes infecciosos mais bizarros que a natureza poderia desenvolver. Nada mais são do que proteína. Príons são a única forma de vida que quebra o grande dogma central da biologia, isto é, o de que todas as formas de vida, dos vírus às bactérias, das plantas aos seres humanos, desdobram-se a partir de códigos contidos em seu DNA, sendo esperado que esses códigos formem as proteínas, que são a base das células, dos tecidos, dos órgãos e dos organismos. As células nervosas comuns produzem proteínas muito parecidas com as mutantes príons, de modo que as defesas naturais do organismo são incapazes de impedir sua expansão.

Artigos publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 7/10/97,
e selecionados pelos professores César, Sezar e Bedaque.