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Nichos, aviões a jato e inimigos naturais

Nicho ecológico é um conjunto de condições nas quais uma espécie sobrevive num determinado ambiente. Inclui não apenas o local em que vive, que é chamado de hábitat pelos ecólogos, mas também como a espécie age sobre o ambiente e como o ambiente age sobre ela; estão incluídos na idéia de nicho os inimigos naturais da espécie, seus hábitos alimentares, suas presas, a época em que se reproduz, e assim por diante. É muito comum os ecólogos falarem que o nicho é a "profissão" da espécie. Os cactos, por exemplo, ocupam nichos especiais nos desertos da América do Norte e do Sul, enquanto o jacinto aquático prolifera nos rios da Floresta Amazônica, ocupando as águas calmas e quentes da superfície.

Na verdade, os ecossistemas do tipo deserto ocorrem em muitas regiões geográficas; assim também podemos dizer dos rios tropicais, que correm mansamente por todas as áreas dos trópicos. Por que, neste caso, cactos e jacintos crescem apenas em áreas restritas do planeta? Isso provavelmente acontece porque eles não conseguiram ultrapassar as regiões em que se originaram evolutivamente, por estarem rodeados de barreiras intransponíveis. Em condições naturais, sem a intervenção humana, os cactos podem se estabelecer em nichos dos desertos da África, do Oriente Médio, da China, da Austrália, desde que pássaros migratórios levem suas sementes de um continente para outro. No entanto, essas dispersões a longa distância são relativamente raras na natureza.

Ou talvez devêssemos dizer que elas eram extremamente raras. Hoje, a espécie humana superou de longe os pássaros migratórios como agentes de dispersão a longa distância. Os aviões e os navios ligam todas as partes do mundo e promovem uma troca de plantas e de animais em escala nunca antes registrada. Esses transportes, algumas vezes, são acidentais, pois as sementes grudam nas roupas das pessoas ou se fixam em outros materiais que estão sendo transportados. Outras espécies são transportadas, de forma voluntária, para cultivo ou ornamentação. Esses viajantes, muitas vezes, sobrevivem nos novos hábitats em que foram colocados - ou nos quais foram parar por acidente -, por terem encontrado condições para crescimento e reprodução. E como seus predadores e parasitas não foram transportados com eles, não encontram no novo ambiente nenhum empecilho que limite sua expansão. É aí que mora o perigo. Essas espécies importadas têm muitas vezes verdadeiras explosões populacionais, pois proliferam rapidamente e começam a competir duramente com as espécies nativas.

Inseticidas ou herbicidas não são específicos para o controle dessas espécies introduzidas, já que também atacariam as espécies nativas. Como resolver o problema, então? Hoje em dia, a maioria dos esforços se concentra em importar parasitas ou predadores dos invasores, trazendo-os de seu ambiente original e introduzindo-os no novo local por eles colonizado; em outras palavras, importar seus inimigos naturais, para estabelecer algum tipo de freio à sua expansão desmedida. Chamamos isso de controle biológico (veja o artigo Vespa contra vespa: um exemplo de controle biológico). Muitas vezes, no entanto, esse predador ou parasita também traz problemas ao novo ambiente. Assim, a solução ideal seria a de achar um inimigo extremamente específico, que somente agisse sobre aquela espécie em particular. Quando a espécie invasora estivesse eliminada, o destruidor morreria por falta de alimento. Mesmo nesse caso, é preciso cautela, pois o inimigo natural introduzido no ambiente pode atacar espécies nativas aparentadas, ou ainda sofrer mutações que o tornem capaz de dizimar várias espécies.

Todos esses problemas tendem a piorar, na medida em que forem aumentando as viagens da era do jato e o transporte de materiais ao redor do planeta.

Traduzido e adaptado pelos professores César, Sezar e Bedaque,
de Plant Physiology, Salisbury, Frank B. e Ross, Cleon W.,
Belmont Wedsworth Publishing Company, 1985.