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Usando o software SkyGlobe em uma aula diferente de ciências

Que tal uma aula diferente de ciências usando um computador? Uma aula em que você poderá explicar o que talvez tenha sido a estrela de Belém da história bíblica? Em que você terá a oportunidade de mostrar aos seus alunos que o Sol não nasce todos os dias no leste, mas apenas em dois dias do ano? E ainda mostrar a eles que o signo astrológico deles está errado, pois a pseudociência da astrologia utiliza dados de 2 000 anos atrás que não foram atualizados?

Pois bem, essa aula, muito rica em variedades, pode ser montada com um programa chamado SkyGlobe e com o uso de um único computador. Trata-se de um software que funciona em ambiente DOS, e portanto não requer Windows e roda em computadores simples como um 386. Para um efeito visual melhor, convém usar um monitor colorido, mas se você não dispõe de um, não deixe que isso o desanime. Ele funciona como um verdadeiro planetário colorido que pode simular o aspecto do céu em qualquer local do mundo e em qualquer época.

O programa SkyGlobe é um programa shareware (programas que podem ser distribuídos gratuitamente e mais tarde, caso haja interesse, registrados junto ao autor do software) e você poderá consegui-lo clicando agora em: http://www.csulb.edu/~gordon/skyglobe.html

Logo que você rodar o programa, irá perceber que todos os comandos aparecem à esquerda da tela. Eles serão fundamentais para sua aula. Explore-os bem. Neste programa, o mouse do computador não tem utilidade, é melhor usar apenas o teclado. Com esses comandos você poderá simular o céu de qualquer lugar em qualquer época, mudar seu aspecto dia a dia (D e shift-D), ou ano a ano (Y e shift-Y), ou ainda milênio a milênio (U e shift-U). Poderá contar ainda com um zoom (Z e shift-Z) para abranger regiões maiores ou menores do céu, mudar o local de observação (com L) escolhendo a cidade do mundo mais próxima de você e optar por deixar ou não as linhas das constelações (C e shift-C), bem como suas linhas-limite (G e shift-G). O horário e a cidade escolhidos aparecem no alto, à esquerda da tela. A linha verde que atravessa a tela representa o horizonte do observador. Com o uso da seta para baixo do teclado, coloque a linha do horizonte bem no meio da tela, horizontal. Assim, neste horário e neste local, você terá o aspecto do céu com os astros que estão acima do horizonte e aqueles que estão abaixo dele. Para rodar o céu, utilize a tecla A (você pode inverter o movimento com shift-A). As teclas S (South=Sul), N (North=Norte), E (East=Leste) e W (West=Oeste) servem para você olhar o céu postado nessas diferentes direções. Tecle E e estará observando o lado onde os astros nascem no horizonte. Agora usando a tecla A seus alunos poderão descobrir o horário de nascimento de qualquer astro naquele dia e naquele local. Olhando pelo lado oeste (W), eles poderão observar também o horário em que qualquer astro se põe.

Veja alguns exercícios que podem ser feitos por eles:

    1) A que horas nasce o planeta Marte hoje? A que horas acontece o seu ocaso?
    2) A que horas nasceu a Lua no dia de seu último aniversário?
    3) A que horas nascem as três Marias no Rio de Janeiro no dia do Natal?
    4) A que horas nasceu o Sol hoje?

Pois bem, agora que já estamos íntimos do programa, vamos dirigir o seu uso para responder aquelas primeiras perguntas que propusemos no início deste texto.

1) O QUE FOI A ESTRELA DE BELÉM?

Neste exercício há que se tomar todo o cuidado para não agredir a fé das pessoas. Não é essa a intenção. O que se pretende é mostrar que existe um fenômeno astronômico, ocorrido na época do nascimento de Jesus e que pode ter sido a estrela de Belém. Temos certeza disso? É claro que não, e isso precisa ficar claro, mas a oportunidade de discutir o assunto pode ser extremamente enriquecedora para seus alunos do ponto de vista do ensino de Ciências, do ensino de História etc. Comece perguntando a eles se Cristo nasceu antes ou depois de Cristo. É isso mesmo, a pergunta não está errada. Explicamos: Herodes, aquele rei malvado que mandou matar as criancinhas de Belém quando soube que deveria nascer uma que iria ameaçá-lo no futuro, morreu, segundo nos conta a história, em 4 a.C. Segundo documentos históricos, Jesus tinha 3 anos quando Herodes morreu. Assim, sabe-se hoje que Jesus nasceu em 7 a.C., ou seja, ele nasceu 7 anos antes de ele mesmo nascer. É claro que esse trocadilho é uma brincadeira, mas a verdade é que um erro no calendário fez com que tivéssemos esses 7 anos de diferença entre o início da contagem de nossa era e a data real do nascimento de Jesus. (Olhe aí uma excelente oportunidade para fazer uma parceria com o seu colega de História). Sabe-se também que seu nascimento não ocorreu em dezembro mas em meados de agosto (entre o dia 15 e 18).

Muito bem, nesta altura já sabemos usar o SkyGlobe e estamos ávidos por saber o que foi a estrela de Belém. Configure o programa para Belém (Bethlehem aparece na lista das localidades) e volte no tempo para 7 B.C. (ou seja, 7 a.C.), mês de agosto, dia 17. Procure pela constelação de Peixes usando a tecla A. Vale lembrar que os nomes das constelações aparecem em latim e abreviados. Nesse caso PEIXE = PSC. Com a tecla zoom (Z), amplie um pouco essa área. O que estamos vendo? Dois planetas muito próximos? Júpiter e Saturno, dois planetas bem brilhantes em conjunção, formando quase que um astro único e muito brilhante, sobressaindo-se do resto. Essa pode ter sido a estrela de Belém. Curiosidade: o símbolo dos cristãos primitivos era o peixe.

2) O SOL NASCE REALMENTE NO LESTE?

Com o auxílio da tecla A, com a vista voltada para o leste (E), coloque o Sol nascendo no horizonte, no dia da aula. Ele está nascendo no leste? A resposta só vai ser positiva se a aula estiver acontecendo nos chamados equinócios da primavera ou de outono, ou seja, nos dias em que começam essas estações. Somente nesses dois dias o Sol nasce exatamente no leste. Com a tecla M altere o céu em um mês. O Sol nasceu agora, um mês depois, no mesmo ponto? Se houver necessidade, desligue o horário de verão com a tecla V. Você poderá mostrar com facilidade que, mais perto do verão, o Sol nasce bem à direita do leste e no inverno bem à sua esquerda. Os pontos extremos acontecem nos chamados solstícios de verão e inverno, ou seja, nos dias de entrada das estações verão e inverno. A palavra solstício vem do latim e significa "sol parado", pois nesses dias o Sol pára e muda de sentido na sua dança no horizonte na hora em que nasce. O ângulo formado entre os dois extremos é de aproximadamente 47º, muito longe de ser desprezível. Assim, não é correto afirmar que o Sol nasce no leste mas é razoável dizer que ele nasce nos lados do leste. (Veja aí também uma excelente oportunidade para trabalhar em conjunto com o seu colega de Geografia).

3) DESCUBRA SEU "SIGNO VERDADEIRO"

Você já deve ter observado as estrelas em alguma daquelas noites estreladas, imperdíveis. As estrelas nascem no lado leste e se põem no lado oeste. As estrelas "nascem" de um lado e "morrem" do outro. O fato de uma estrela "morrer" no lado oeste nunca trouxe nenhuma preocupação para ninguém porque sempre se soube que, no dia seguinte, ela estaria nascendo novamente, ocupando o mesmo lugar no céu. Essa certeza dos povos antigos trouxe consigo a idéia de que o céu guarda o futuro junto de si, de que ele é programado, previsível. Assim, se conhecêssemos bem a sua mecânica, poderíamos nós, também, prever o futuro. Essa crença de que os astros podem predizer o futuro fez com que nascesse a pseudociência da astrologia. Hoje, os planetários do mundo todo, os museus de ciências, os observatórios todos são ferrenhos opositores a esta crença tão difundida entre nós e diariamente encontrada em todos os jornais em forma de horóscopos. O SkyGlobe pode contribuir para elucidar alguns pontos fatalmente falhos na astrologia e abalar um pouco a crença em horóscopos entre os seus alunos.

Primeiramente, vamos entender o que são os tais signos. Com o uso do SkyGlobe, você poderá mostrar aos seus alunos que o Sol, com o passar dos meses, caminha sobre uma linha chamada eclíptica, tendo como pano de fundo diferentes constelações durante o ano. Como a maioria dessas constelações tem nomes de animais (leão, capricórnio, peixes, touro etc.), esse conjunto de constelações foi chamado de zodíaco (do grego zoo = animal). Assim dizemos que determinada pessoa é do signo de gêmeos, se, quando ela nasceu, o Sol estava passando pela constelação de gêmeos. Bom, aí temos dois grandes problemas:

1. O número de constelações pelas quais o Sol passa em um ano é 13 e não 12, como ensina a astrologia. Ele passa cerca de 12 dias apenas na constelação do Escorpião (SCO) e cerca de 18 na ignorada, injustiçada constelação do Ofiúco (OPH). Sim, é isso mesmo, muitos de nós somos do signo de Ofiúco e felizmente isso não tem a menor importância. Por que se ignorou esta 13ª constelação? No dia 28 de março o Sol "raspa" ainda uma 14ª constelação, da Baleia (CET). Por que foram ignoradas? Confira com seus alunos no SkyGlobe.

2. A Terra tem um movimento chamado de precessão dos equinócios, que consiste em seu eixo girar de modo semelhante a um pião quando está cambaleando. Neste giro, o eixo da Terra dá uma volta completa a cada 25 800 anos. Esse movimento faz com que observemos o Sol variando seu pano de fundo com o passar dos milênios. Essa mudança é tal que, mais ou menos a cada 2 000 anos, os signos "escorregam" um mês. A "atual" definição de datas de nascimento correspondentes a cada signo foi feita 2 000 anos atrás, imaginando-se um universo estático, imutável. Hoje sabemos que não é bem assim. O universo é dinâmico e mutável. Experimente agora pedir aos seus alunos que configurem o SkyGlobe para a sua data de nascimento. Com o comando G você poderá visualizar melhor os limites de cada constelação. Peça que cada um deles verifique se seu signo é aquele que ele sempre imaginou. A decepção será geral. Todos têm signos diferentes daquele que imaginavam. Peça agora para que eles retrocedam 2 000 anos e eles verão que, aí sim, os signos seriam aqueles imaginados. Esse simples exercício tem grande efeito para mostrar que a astrologia não tem embasamento científico e é uma atividade que deve ser vista com desconfiança.

Era esse o nosso recado. Temos usado esses recursos com alunos e os resultados são realmente muito bons. Esperamos que vocês possam aproveitar essas dicas e, se possível, que nos escrevam contando suas próprias experiências.

Pesquisa e autoria dos professores César, Sezar e Bedaque
(setembro de 1996)