Voltar

 

Marte: a ficção e a realidade

O fascínio que Marte sempre exerceu sobre a humanidade é imenso. O tema foi explorado de várias maneiras por escritores de ficção científica, antigos e modernos. Para citar alguns casos, Edgard Rice Burroughs, o criador de Tarzan, escreveu vários romances sobre Marte, chamados em conjunto de Ciclo de Barsoom. H. G. Wells, na Guerra dos Mundos, mostra os marcianos invadindo a Terra; a conquista só não se efetiva por causa de uma providencial infecção que toma conta dos invasores. O famoso ator Orson Welles, em 1938, dramatiza a Guerra dos Mundos numa emissão radiofônica que aterroriza os Estados Unidos, levando muita gente à histeria e ao pânico. Mais recentemente, Ray Bradbury, nas Crônicas Marcianas, celebra de forma poética o Planeta Vermelho. Por fim, as gerações mais novas certamente se lembrarão do filme O vingador do futuro, em que boa parte da ação se passa em Marte, sem atmosfera, onde as pessoas vivem em cúpulas artificiais (o filme se baseia num conto de Philip K. Dick chamado "Total Recall").

Através dos primeiros telescópios, Marte mostrou-se de coloração vermelha, que sugeria desertos, com regiões verdes, que se supunha corresponderem a oásis de vegetação. Na realidade, as regiões que apareciam em verde são, sabemos hoje, rochas mais escuras, da superfície das quais os ventos removeram a areia vermelha. As calotas polares marcianas sugeriam a presença de água; sondas espaciais demonstraram, no entanto, que elas são constituídas principalmente de dióxido de carbono (CO2) congelado; a água, se existir, deve estar abaixo da superfície ou como traços de vapor na fina atmosfera ou, ainda, como pequenos cristais de gelo.

À medida que os telescópios se sofisticavam, desenvolviam-se também as idéias, falsas ou verdadeiras, sobre o aspecto da superfície de Marte. No século XIX, um astrônomo italiano, Schiaparelli, descreveu os famosos canais que formavam uma verdadeira rede. Esses canais foram relacionados por Percival Lowell, astrônomo americano, aos desesperados esforços de uma civilização marciana, tentando combater através da irrigação as condições de seca e de aridez de seu planeta. Lowell dedicou sua vida ao estudo de Marte e desenhou milhares desses canais, que mais tarde se verificou serem nada mais do que uma ilusão de óptica.

Assim mesmo, devido à influência de Lowell, ficou muito popular a noção da existência de marcianos. Foi sugerida, por exemplo, a construção de imensos espelhos no deserto, para enviarmos sinais aos habitantes do planeta vizinho. A crença em marcianos era tão forte que, em 1902, uma viúva francesa ofereceu 100.000 francos para a primeira pessoa que fizesse contato com algum alienígena; só não valia se o alienígena fosse de Marte. Afinal, a existência de marcianos eram favas contadas!

Infelizmente a realidade se revelou muito menos excitante. As missões Mariner e Viking, entre 1964 e os meados da década de 70, fotografaram a superfície de Marte e estudaram sua atmosfera, com sondas em órbita e outras que aterrissaram no planeta. A antiga idéia de canais foi descartada, tendo sido evidenciados leitos secos de rios e gás carbônico nas calotas polares, demonstrando que a água e o CO2 estiveram presentes em Marte alguns milhões de anos atrás. Evidenciou-se assim que, no passado, Marte foi mais quente e mais úmida, reunindo as condições para o aparecimento da vida. Desde então, a atmosfera de Marte desapareceu; por não estar protegida contra a radiação ultravioleta do Sol, a superfície do planeta tornou-se estéril. Ninguém sabe, no entanto, o que pode existir debaixo da superfície.

Pesquisa e autoria dos professores César, Sezar e Bedaque
(setembro de 1996)