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Santos Dumont, o verdadeiro Pai da Aviação

Quando eu tinha meus 15 anos de idade, tive uma fase de grande interesse por Santos Dumont. Li vários livros sobre o grande inventor brasileiro e ele passou a ocupar em definitivo um lugar na lista de meus ídolos. Por ser brasileiro, como nós, acredito que uma certa dose de orgulho patriótico me ajudou nesta adoção, algo como aquele sentimento que temos durante uma copa do mundo de futebol ou que tínhamos numa daquelas corridas inesquecíveis do Airton Senna, quando brilhava a estrela do Brasil.

Um dos livros que li citava uma biografia de Santos Dumont chamada Quem deu asas ao homem, escrita por um "tal" de Henrique Dumont Villares, que certamente eu não conhecia. A coincidência do sobrenome chamou minha atenção. Resolvi tentar encontrar este livro; procurei na lista telefônica o telefone do "tal" Henrique e achei. Liguei disposto a falar com ele. Atendeu uma senhora e eu prontamente disse: "Boa noite, eu gostaria de falar com o Senhor Henrique Dumont Villares". Ela calmamente respondeu: "Pode ser comigo mesmo. Aqui quem fala é a viúva dele". Muito sem graça pela grosseria que eu havia cometido, expliquei a ela que eu era um estudante interessado em Santos Dumont e que gostaria muito de conseguir uma cópia do livro escrito pelo falecido marido dela. Com todo o carinho do mundo, esta senhora deu-me o telefone de seu procurador, que poderia conseguir-me uma cópia do livro. E foi o que aconteceu; dias depois recebi pelo correio um livro já bastante envelhecido chamado Quem deu asas ao homem, escrito pelo sobrinho do grande inventor. Junto com ele, recebi de presente uma reprodução de um álbum de fotos, algumas até com dedicatória para pessoas da família de Santos Dumont. Guardo até hoje estes dois volumes com bastante cuidado e eles ocupam um lugar especial em minha biblioteca.

Curiosamente, Santos-Dumont é menos venerado em nossas escolas do que merece. Não há dúvidas de que ele é mesmo o inventor do avião. Os americanos insistem em dar o crédito desta invenção aos irmãos Wright, que teriam voado em 1903 no interior dos Estados Unidos, sem testemunhas, enquanto o primeiro vôo de Santos Dumont com um aparelho mais-pesado-que-o-ar aconteceu em 1906, em Paris, na presença de centenas de pessoas. Acontece que os irmãos Wright se apresentaram publicamente em 1908, na Europa, com o seu avião que só alcançava os ares após ser lançado por uma espécie de catapulta, e não subia com recursos próprios como o famoso 14-BIS do brasileiro. Assim, ficou claro que, em 1903, os americanos não saíram do chão com sua máquina de voar, mas foram arremessados ao ar e planaram por algum tempo.

Em julho de 1998, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma reportagem a respeito de um livro lançado nos Estados Unidos chamado Man Flies - The Story of Alberto Santos Dumont, Master of the Baloons, uma biografia escrita pela americana Nancy Winters. Neste livro, a autora defende a tese de ter sido o brasileiro o primeiro a voar com um aparelho mais-pesado-que-o-ar. Leiam abaixo um trecho da entrevista feita com a escritora.

Folha - O que levou a senhora a se interessar pela vida de Dumont?

Nancy Winters - Na verdade, acho que foi o Santos Dumont que me encontrou. O que parece bobo, mas eu sou uma poeta também, então eu acredito nessas coisas. Há uns 15 anos, eu tive um problema com um relógio de quartzo que eu havia acabado de comprar na loja Cartier, em Nova York. O vendedor da loja se prontificou a tentar consertá-lo. Enquanto isso, a meu pedido, me emprestou um Santos Sport, modelo Cartier que homenageia o aviador, de quem eu nunca havia ouvido falar. Alguns anos depois, eu fui ao Brasil e vi, no aeroporto Santos Dumont, a estátua do aviador. Numa ida ao Museu de Arte Moderna, em São Paulo, me deparei com o Brazil, o primeiro balão de Santos Dumont. Comecei a me interessar pelo personagem, o que me levou a pesquisar seu trabalho.

Folha - No livro você fala da reação de Santos Dumont ao sucesso dos irmãos Wright. Você acha que o brasileiro foi injustiçado?

Nancy Winters - O sentimento de Santos Dumont, nesse estágio, era de que não era justo que, depois de seu trabalho ter sido divulgado, inspirado o mundo, alguém aparecesse e dissesse que já tinha feito a mesma coisa. Acho que esse é um ponto-chave. Na contracapa do livro, eu escrevi que Dumont foi aclamado na Europa, antes que se descobrisse que os Wright o haviam precedido. Eu não acredito mais nisso. Ele não foi precedido. Ele fez o vôo, o feito foi cronometrado, e todo o mundo ficou sabendo o que ele tinha feito. Ninguém tinha ouvido falar dos irmãos Wright, e eles apareceram depois do fato.

Galeria de Fotos (click na foto para vê-la maior)

Autoria do professor Paulo Bedaque