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O "chulé", os mosquitos e o queijo

Esse mosquito, do gênero Aedes, é responsável pela transmissão de um certo tipo de encefalite.

Qual seria a relação entre chulé, mosquitos e queijos? A que existe entre os queijos e o "chulé", vocês me diriam, dá para imaginar... Mas os mosquitos, o que teriam a ver com isso?

Sabe-se, há tempos, que a percepção de odores tem um papel importante na vida dos animais: ela lhes possibilita achar seu alimento, fugir dos inimigos, encontrar com parceiros sexuais, marcar seu território, e uma série de outras atividades importantes para a sua sobrevivência e perpetuação.

Nos mamíferos, incluindo o ser humano, a pele produz suor e sebo; além disso, ela pode conter substâncias com odor, provenientes da atividade de bactérias que vivem em diferentes regiões do corpo, como as axilas, os pés, as orelhas. Existem, também, os cheiros peculiares a cada indivíduo, específicos, que dependem de sua dieta, das doenças que ele tem, do nível de seu metabolismo e até de fatores genéticos. Você deve ter ouvido certas pessoas dizerem que são "vítimas" prediletas dos mosquitos sugadores de sangue, que as atacam com maior intensidade do que a outras pessoas. Os odores individuais, em parte, poderiam ser responsáveis por essa preferência.

Nossa pele, portanto, contém um grande número de substâncias atrativas para os mosquitos, que sinalizam a eles a presença de um indivíduo e, portanto, a disponibilidade de seu alimento, o sangue. Descobriu-se, por exemplo, que o cheiro dos pés, o chamado "chulé", é um forte estímulo, que permite ao mosquito localizar a pessoa, e a picada se dá preferencialmente, e não por acaso, no próprio pé... Verificou-se ainda que substâncias como o ácido butírico e o ácido valérico são algumas das substâncias responsáveis pelo cheiro dos pés e, por isso, bastante atrativas para o mosquito Anopheles gambiae.

O queijo tipo "limburger" é, seguramente, um dos mais malcheirosos já produzidos pelo ser humano. De origem belga, é também fabricado na Alemanha e em outros países. Assim mesmo, tem legiões de apreciadores, que o degustam temperado com cebolas, acompanhado de pão preto e de cerveja escura. Se você se interessa pelas centenas de tipos de queijos existentes, dê uma olhada no seguinte endereço na Internet: http://food.epicurious.com/db/dictionary/terms/c/cheese.html

Muito curiosamente, esse mosquito mostra o mesmo grau de atração por um certo tipo de queijo, chamado "limburger", produzido pela inoculação de bactérias da espécie Brevibacterium lineus. Neste queijo, foram identificados não menos de 18 ácidos graxos responsáveis pelo seu odor; uma mistura desses ácidos, em concentrações não-perceptíveis pelo nosso olfato, foi capaz de atrair o mosquito. Algumas dessas substâncias, presentes na pele humana, mas ausentes na de outros mamíferos, explicariam a preferência do Anopheles gambiae pelo hospedeiro humano.

Com base nesse conhecimento, podem ser desenvolvidas "iscas-armadilhas", com soluções desses ácidos graxos associados a inseticidas. Uma outra possibilidade seria a de atrair os mosquitos para outros hospedeiros, pulverizados com as substâncias responsáveis pelos odores humanos. Aliás, vale lembrar que um procedimento muito comum em vilas do Sudeste asiático consiste em manter os porcos ou o gado junto às casas, à noite, para atraírem os insetos, diminuindo dessa forma o ataque às pessoas, dentro das casas.

Mosquitos do gênero Anopheles, como o da foto, são transmissores de malária.

Verificou-se que a simples lavagem dos pés com sabão bactericida altera a preferência do Anopheles gambiae por essa região do corpo. Assim, a higiene pessoal, com a eliminação do famoso "chulé", significa menor freqüência de picadas de insetos hematófagos em geral, podendo, por causa disso, se constituir numa proteção contra doenças que esses insetos transmitem, como a malária e a doença do sono, na África.

Uma sugestão brincalhona, agora: que tal deixar pedaços do queijo do tipo "limburger", o "queijo-chulé", fora de casa, à noite, para dormir mais tranqüilo, a salvo dos insetos inconvenientes?

Esse artigo foi, em grande parte, adaptado de Science & Medicine (outubro de 1997).
Uma parte da pesquisa foi realizada na Internet, em agosto de 1998,
pelos professores César, Sezar e Bedaque.