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A história da borboleta e do maracujá

Ecologia e evolução andam quase sempre juntas. Dentro das comunidades, é comum encontrarmos adaptações de certas espécies à presença de outras. O clássico exemplo das mariposas melânicas da Inglaterra é testemunho disso; é provável que a presença de liquens sobre os troncos tenha favorecido a adaptação de mariposas manchadas, antes de chegar a poluição, que escureceu a vegetação. Muitas vezes, a adaptação que uma espécie sofre a habilita a parasitar melhor uma outra espécie. No entanto, a espécie parasitada pode sofrer adaptações que a deixem mais resistente à presença do parasita. Fala-se, nestes casos, em coevolução, o que quer dizer evolução conjunta. O exemplo a seguir ilustra muito bem o fenômeno da coevolução.

De maneira geral, as folhas jovens das plantas de maracujá (gênero Passiflora) produzem substâncias tóxicas que as protegem contra as larvas de insetos. Há, no entanto, uma espécie de borboleta cujas larvas toleram essas substâncias, provavelmente porque têm enzimas que as digerem. Essas larvas usam as folhas de maracujá como alimento, o que deve representar uma adaptação do inseto à planta. Outro detalhe interessante: as borboletas podem botar seus ovos, de cor amarelo brilhante, sobre as folhas do maracujá; no entanto, as fêmeas dessa espécie evitam desovar sobre folhas já marcadas com manchas amarelas. Esse comportamento provavelmente diminui a competição das larvas pelo alimento, já que dessa forma poucos indivíduos eclodirão em cada folha.

Larvas dessa espécie de borboleta podem destruir rapidamente uma planta inteira; é provável que essa forte predação seja uma importante pressão de seleção, no sentido de a planta ter "adquirido" proteções adicionais, ao longo da evolução. Percebe-se assim que, em algumas espécies de maracujá, as folhas apresentam manchas amarelas bem visíveis, muito parecidas com ovos da borboleta em questão. Essas manchas são na realidade nectários, estruturas produtoras de néctar, um líquido açucarado. As fêmeas da borboleta confundem os nectários com ovos, e evitam desovar sobre as folhas. Isso acaba representando, para a planta, uma defesa razoável contra as larvas.

Esse caso é então um exemplo clássico de coevolução; enquanto as borboletas se adaptaram às substâncias tóxicas do maracujá, através de enzimas digestivas, o maracujá se adaptou pelo aparecimento dos nectários, que inibe a desova sobre as folhas.

No entanto, as coisas não são tão simples assim. Os nectários, devido ao líquido que fabricam, atraem formigas e vespas, que por coincidência são predadores dos ovos da famosa borboleta. Tudo indica que a mera presença de formigas numa folha já consegue dissuadir a borboleta de botar seus ovos. Assim, o que parecia ser a adaptação de apenas uma espécie à outra, mostra ser, na realidade, uma trama complexa de relações evolutivas entre vários organismos da mesma comunidade.

(Adaptado de Biologia, César e Sezar, volume 3,
editado pela Saraiva)