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Biosfera 2: uma arca de Noé mal sucedida

Um projeto grandioso

Esse ambicioso projeto, chamado Biosfera 2, de que os jornais falaram no início da década de 90, começou a ser executado em 1986, e foi custeado por um bilionário texano, Edward P. Bass, que gastou nele a bagatela de 200 milhões de dólares! Foi construído no Arizona um imenso laboratório ecológico em vidro e aço, totalmente isolado do exterior. A meta era criar um ambiente totalmente auto-suficiente, em que os moradores - seres humanos, além de 3800 espécies, entre animais e vegetais - pudessem sobreviver, através da reciclagem do ar e da água e da produção do próprio alimento.

Na Biosfera 2, que ocupava uma área de mais de 12.000 m2, foram criados cinco biomas "naturais": uma floresta tropical úmida, com pequenas montanhas, um oceano com 4.000.000 de litros de água e seu próprio recife de coral, uma savana com plantas herbáceas, um pantanal e um deserto. Havia ainda uma fazendinha que forneceria todo o alimento necessário aos habitantes, e também uma área residencial que abrigaria os primeiros "biosferianos".

Os objetivos do projeto

O projeto Biosfera 2, que pretendia construir uma miniatura de nosso planeta (a Biosfera 1), permitiria entender melhor como este funciona, e de que maneira a espécie humana interage com os ecossistemas terrestres. Um dos propósitos era descobrir os tipos de problemas que poderiam surgir em sistemas fechados. É provável que alguns dos idealizadores do projeto tivessem a esperança de obter informações que ajudassem, no futuro, a planejar viagens espaciais muito longas, ou ainda que ensinassem a viver em planetas inóspitos, como Marte.

Uma parafernália tecnológica

É evidente que um projeto dessa envergadura necessitava de uma infraestrutura bastante complexa. Debaixo das construções, foi estendida uma imensa rede de fios, canos, instrumentos eletrônicos, sistemas de aquecimento e de resfriamento, máquinas para gerar "ondas" na água, etc. Estavam presentes ainda 1500 sensores eletrônicos, que mediam a taxa de gases da atmosfera, a umidade relativa do ar, a temperatura do ar e do solo, e a quantidade de nutrientes no oceano. Toda a energia necessária era produzida por três geradores, dois movidos a gás natural e o terceiro a diesel.

Foram ainda idealizados na Biosfera 2 dois "pulmões", em comunicação com o resto do projeto. O volume desses dois domos variava, dependendo da quantidade de ar que havia neles. Os "pulmões" tinham a finalidade de prevenir a explosão ou a implosão da construção, devido à expansão ou contração do ar. Quando o ar da Biosfera 2 se aquecia, ele se expandia, era forçado através de longos túneis, abria um "diafragma" e era armazenado nos "pulmões"; ao contrário, quando o ar esfriava, ele era devolvido à Biosfera 2.

As duas tripulações da Biosfera 2

A 26 de setembro de 1991, uma equipe de 8 pessoas (4 homens e 4 mulheres) entrou através de uma comporta de ar, fechando-se no interior. Logo enfrentaram muitos problemas, que foram se agravando aos poucos. Apesar disso, conseguiram permanecer dentro por dois anos completos, emergindo apenas em 26 de setembro de 1993. Seis meses depois da saída da primeira "tripulação" da Biosfera 2, outro grupo de 7 pessoas, sendo 5 homens e duas mulheres, ficaram encerrados nela por mais 6 meses, até 17 de setembro de 1994. Desde essa época, não tem havido mais equipes residentes, e não se planeja nada de parecido, pelo menos por enquanto.

Os motivos do fracasso

A tentativa de se construir um ambiente artificial foi frustrada por várias dificuldades; pode-se dizer que, nos dois primeiros anos, a Biosfera 2 tornou-se muito mais parecida com o Inferno do que com o Paraíso Terrestre! Segundo as palavras de um dos responsáveis atuais: "...é extremamente difícil brincar de Deus e conseguir fazer tudo funcionar num planeta; os biosferianos tinham que fazer tudo, desde colher seu próprio café até manter um complicado sistema de encanamentos e computadores...".

Relembra hoje Bernd Zabel, um dos biosferianos da primeira equipe: "Gastávamos 95% de nosso tempo fazendo nossa comida crescer e cuidando de nossa sobrevivência básica. Desse jeito, não sobrava muito tempo para trabalho científico".

Um dos maiores problemas relacionou-se à composição do ar. O ar atmosférico normal contém 21% de oxigênio; no interior da Biosfera 2, essa taxa foi caindo aos poucos, chegando a uns alarmantes 14%! Era o mesmo que viver no alto de uma montanha muito alta, respirando um ar exageradamente rarefeito, tornando muito difícil qualquer tipo de esforço. Para assegurar a sobrevivência dos biosferianos, a direção do projeto foi forçada a injetar oxigênio através de um dos "pulmões", abandonando assim o objetivo inicial de uma auto-suficiência completa.

Um cientista da Universidade de Columbia, chamado mais tarde para pesquisar o problema, descobriu que o solo no interior da Biosfera 2 era exageradamente rico em material orgânico, e que proliferavam nele microrganismos, cuja respiração consumia oxigênio. No entanto, a taxa de gás carbônico não estava aumentando como deveria. Para onde ia o gás carbônico que esses microrganismos produziam? Verificou-se, finalmente, que boa parte dele estava sendo absorvida pelo concreto fresco, que tinha sido utilizado para construir a Biosfera 2.

Havia ainda outro problema com a atmosfera. Foram detectados altos níveis de óxido nitroso, também chamado gás hilariante. Na nossa atmosfera, o gás nitroso é normalmente destruído pelos raios ultravioleta; na Biosfera 2, no entanto, as paredes de vidro bloqueavam essa radiação. Sabe-se que o óxido nitroso, em concentrações altas, pode interferir com a síntese da vitamina B-12, causando danos ao cérebro.

No entanto, o maior problema estava na dificuldade de se conseguir alimento suficiente. Em parte, porque o nível de iluminação estava abaixo do previsto, e também porque as plantações começaram a ser atacadas por pragas. Os biosferianos começaram a perder peso, a questão do alimento tornou-se uma verdadeira obsessão, a ponto de haver sérias desavenças entre eles, com brigas e acusações sobre roubo de comida.

Das 25 espécies de vertebrados originalmente utilizados para o projeto, apenas 6 sobreviveram; a maior parte dos insetos também se extinguiu. A perda das abelhas e dos beija-flores, além de outros polinizadores, foi um desastre para as plantas, que se viram limitadas a uma única geração, sendo incapazes de se reproduzir. Alguns organismos, no entanto, prosperaram, como certas plantas daninhas, uma espécie de formigas, e baratas, baratas aos montes! Cientistas da Universidade de Columbia estão tentando entender, ainda, o motivo dessa explosão populacional.

O futuro da Biosfera 2

Desde janeiro de 1996, a Universidade de Columbia se associou ao projeto Biosfera 2. Embora os projetos futuros não estejam prevendo nada de tão espetacular como encerrar pessoas dentro dela, os cientistas avaliam que a Biosfera 2 é um instrumento valioso para se fazer experimentos controlados, em que poderá ser medido o efeito de variáveis como a taxa de gás carbônico e a temperatura sobre os ecossistemas. Um dos projetos, por exemplo, prevê a divisão da "fazenda" em 3 partes, em que cada uma poderia ser submetida a uma concentração de gás carbônico diferente, para verificar o efeito sobre o crescimento das plantas. No oceano, poderia se averiguar ainda a influência da mudança do clima sobre os recifes de coral.

Não se pode dizer, em absoluto, que a Biosfera 2 seja um fracasso absoluto. Mesmo que se pense apenas em termos de atração turística, mais de um milhão de pessoas, pagando uma entrada de mais ou menos 13 dólares, já a visitaram. A parte aberta à visitação inclui somente o "habitat humano", em que moraram os biosferianos; aí, é possível ver a mesa de mármore em que tomavam suas refeições, ou ainda visitar os banheiros, em que usavam duchas ao invés de papel higiênico... Os biomas continuam isolados do público, à disposição dos cientistas que neles trabalham, que entram e saem neles todos os dias, através de comportas de ar. Além disso, vários programas educacionais estão sendo desenvolvidos no seu interior, sendo recebidas várias turmas de estudantes universitários.

Os objetivos iniciais da Biosfera 2 certamente não foram atingidos. Demonstrou-se muito difícil, se não impossível, criar um ecossistema que sustente a vida de forma tão eficaz quanto nosso planeta faz. Assim mesmo, é muito provável que a verdadeira utilidade da Biosfera 2 venha ainda a ser descoberta, através dos resultados das pesquisas que essa gigantesca estufa permitirá no futuro.

Pesquisa e autoria dos professores César, Sezar e Bedaque (agosto de 1997).
Se quiser obter outras informações, visite o site do projeto: www.bio2.edu