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Bactérias que comem pedras e vida em Marte

A esperança de podermos, um dia, encontrar vida em Marte recebeu, em meados da década de 1990, um inesperado estímulo. Foram descobertas, nos Estados Unidos, bactérias estranhíssimas, tremendamente econômicas quanto a sua dieta e necessidades: elas se alimentam basicamente de água e de pedras.

Essas bactérias foram encontradas em rochas profundas que armazenam água, no interior de formações basálticas, perto do Rio Columbia, em Washington. Aparentemente, esses organismos não usam matéria orgânica alheia (isto é, não são heterótrofos). Mas também não usam a luz do sol e nem energia geotérmica!

Ao invés disso, as bactérias conseguem sua energia da seguinte maneira: ocorre uma reação química espontânea entre os silicatos presentes no basalto e a água, havendo liberação de hidrogênio. As bactérias usam este hidrogênio, o combinam com gás carbônico dissolvido na água e fabricam metano. Essa reação libera energia, que as bactérias utilizam para produzir seu alimento orgânico.

Os pesquisadores Todd Sevens e Jim McKinley, que descobriram este tipo de bactérias, as cultivaram em laboratório, fornecendo-lhes nada mais do que água e pedaços de basalto moído. A maioria das culturas sobreviveu apenas com esta dieta; no entanto, foram também encontradas algumas espécies que requeriam matéria orgânica, o que faz suspeitar que existam verdadeiros ecossistemas subterrâneos, em que microrganismos de diferentes capacidades, autótrofos e heterótrofos, se relacionam. Esse possível ecossistema recebeu o nome de SLiME, abreviação de subsurface lithoautotrophic microbial ecosystem ou, numa tentativa de tradução, um "ecossistema microbiano litoautotrófico subterrâneo" (lito significa pedra e autotrófico quer dizer que produz seu próprio alimento orgânico).

Foi explicado, então, o porquê de haver metano ou gás natural na região do Rio Columbia. Normalmente, esse gás é encontrado em regiões de rochas sedimentares, ricas em matéria orgânica, contrariamente à região do Rio Columbia, de rochas vulcânicas com pouca matéria orgânica. Se a suposição dos pesquisadores for correta, deve haver uma imensa quantidade de metano na região, de 422.000 km2 de área e 5 km de profundidade, produzido por um ecossistema microbiano subterrâneo.

O que teria tudo isso a ver com a possibilidade de vida em Marte, presente ou passada? Na realidade, se ainda há algum tipo de vida em Marte, deve se assemelhar muito a essas bactérias pouco exigentes. Todos os ingredientes necessários a essas bactérias estariam presentes no ambiente marciano (será que poderemos um dia falar em ecossistema marciano?). Alguns cientistas da NASA acreditam ser muito possível a existência de alguma coisa parecida com os ecossistemas do tipo SLiME em Marte. Sobra agora o mistério seguinte: como bactérias desse tipo teriam ido parar naquelas profundidades, no caso das rochas vulcâncias de que falávamos? A não ser, é claro, que a vida não tenha se originado nos mares primitivos, como se explica classicamente...

Traduzido e adaptado pelos professorres César, Sezar e Bedaque,
de um artigo da revista New Scientist, de 28/10/95